Please use this identifier to cite or link to this item: http://hdl.handle.net/10316/23668
Title: Memória e mito dos descobrimentos na literatura do século XX
Authors: Carvalho, Cidália Viegas de 
Orientador: Santana, Maria Helena
Keywords: Identidade; Memória das descobertas na literatura do século XX; Nacionalismo; Mitografia das descobertas na literatura do século XX
Issue Date: 19-Mar-2014
Citation: CARVALHO, Cidália Viegas de - Memória e mito dos descobrimentos na literatura do século xx. Coimbra : [s.n.], 2014. Tese de doutoramento. Disponível na WWW: http://hdl.handle.net/10316/23668
Abstract: O construto cultural, que é a nação, radica numa base material alicerçada num sistema de representação simbólica e sociocultural; constitui-se como uma forma superior de identificação, assente num vasto legado de memórias, no desejo de viver junto e perpetuar o valor integral da herança que se recebeu. Tais argumentos confluem na mitificação de certos momentos históricos e na formação de um imaginário coletivo que, no caso português, engloba heroísmo, ousadia, fé e um destino messiânico. A literatura não é alheia à identidade nacional, pelo contrário, contribui decisivamente para a sua formação, ao dar expressão aos temas e mitos que conformam o imaginário da comunidade. No caso português perpetua a ideia de um país em constante viagem, cujo destino transcende o seu território. A glorificação desta mitografia surge na Literatura Portuguesa já na Idade Média e prolonga-se até à atualidade, embora apresente cambiantes, que vão desde a mera descrição, ao elogio, à condenação e ao exorcizar da fantasmagoria coletiva. Este último tópico surge em época mais recente, com uma dimensão nostálgica inerente à memória, oscilando entre a perda e a conservação, a necessidade de lembrar e esquecer os fantasmas (ligados a traumas antigos e modernos, como o desaparecimento de D. Sebastião, ou a perda do Império Colonial). Na história da cultura portuguesa, marcada pelos Descobrimentos, são inseparáveis as ideias de nação e de império. O império que Portugal sonhou, e o que possuiu de facto por cinco séculos e que lhe valeu a criação de uma imagem contraditória: a de um povo predestinado, de senhor dos mares e da conquista, mas também de um país sem um projeto realista de futuro. Tal viria a confirmar-se com a perda das colónias africanas, após a Revolução de 25 de Abril de 1974, que obrigou a uma reconfiguração do espaço nacional. Seguindo o intertexto camoniano ou recorrendo à paródia e à ironia, a literatura do século XX perpetua o processo de mitificação ou contribui para contestar a versão tradicional dos eventos históricos. Refira-se, do conjunto das obras selecionadas: Mensagem, de Fernando Pessoa, em que, numa linha épico-lírica, perpassa a ideia de Portugal como cabeça da Europa e ao comando do Quinto Império, sob signo messiânico; O Senhor Ventura, de Miguel Torga, cuja narração nos mostra as aventuras de um pícaro português no Oriente, como acontecera com o herói da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto; Tocata para dois Clarins, de Mário Cláudio, onde, a propósito de uma visita à Exposição do Mundo Português e da glorificação das Descobertas Marítimas, se satiriza a máquina de propaganda salazarista em pleno funcionamento, numa tentativa de justificar a necessidade da permanência nas colónias; As Naus, de António Lobo Antunes, uma antiepopeia paródica em que passado imperial e presente pós-imperial se encontram amalgamados, num retorno improvável de figuras de proa da época das Descobertas, dando lugar a uma atmosfera de miséria social e humana; O Conquistador, de Almeida Faria, reinterpreta a História, parodiando, através do seu protagonista, a figura histórica e mítica do jovem rei desaparecido em Alcácer-Quibir, em 1580; Jornada de África, Romance e Amor e Morte do Alferes Sebastião, de Manuel Alegre, revela um cariz autobiográfico, narrando a desventura de um jovem estudante que acaba, à semelhança do jovem rei seu homónimo, por desaparecer em combate; A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, realiza uma viagem pela identidade nacional e individual, acompanhando a transformação uma jovem que também assistiu à crueldade da guerra; ou A Jangada de Pedra, de José Saramago, que, através do recurso ao fantástico (imaginando a Península Ibérica a navegar pelo Oceano Atlântico), aponta para a força de união ibérica face à Europa que se agrega em comunidade económica. Confrontando o passado e o presente de um povo que conquistou um império ultramarino notável e que viveu sob o signo da mística desse império durante séculos, a literatura portuguesa contemporânea inspira-se na mitografia para reinventar a imagem da nação.
The cultural construct, known as nation, is grounded on a material basis of a system of symbolic and socio-cultural representation. It becomes a superior form of identification based on a wide legacy of memories; on the wish of living together and perpetuating the whole values of the received inheritance. Such arguments result in the mythification of particular historical moments and in the construction of a collective imaginary that, in the specific Portuguese case, includes heroism, audacity, faith and a Messianic destiny. Literature is by no means strange to the national identity; on the contrary, it decisively contributes for its formation, by expressing the themes and myths that compound the community imaginary. In the Portuguese case, it immortalizes the idea of a country in constant journey, whose destination transcends its territory. The glory of historic past appears in the Portuguese Literature during the Middle Ages and is extended on to contemporaneity, even though it presents changes that move from the simple description to praise and condemnation and to the exorcism of a collective phantasmagoria. This last topic appears in a more recent period with a nostalgic dimension that derives from memory, including the sense of loss and preservation, the need to remember heroes and to forget the ghosts (some of them connected to ancient and present traumas as the disappearance of King Sebastian or the loss of the Colonial Empire). In the history of the Portuguese Culture, earmarked by the Discoveries, the ideas of nation and empire are inseparable. The dreamt empire and the one Portugal possessed for over five centuries were responsible for the creation of a contradictory image: on the one hand, the people who were predestined to conquer the seas and rule the world, and, on the other, the one of a country with no real project for the future. This last image would come to be confirmed by the loss of the African colonies, after the Revolution of the 25th of April,1974, that forced a reconfiguration of the national territory. Either by following the path of Camões intertext or by resorting to the parody and irony, the literature of the 20th century perpetuates the mythification process and contributes to the contestation of the traditional version of the historical events. Let us focus on the selected works for analysis: in Mensagem by Fernando Pessoa, there is an epic-lyric line that pervades the idea of Portugal as the head of Europe, the country that commands the Fifth Empire under the Messianic edge; O Senhor Ventura, by Miguel Torga, describes the adventures of a Portuguese picaresque in the Orient, as happened earlier with the hero of Peregrinação, by Fernão Mendes Pinto; Tocata para Dois Clarins, by Mário Cláudio: under the excuse of a visit to the Exhibition of the Portuguese World and the glorification of the Discoveries, the operating propaganda machine of Salazar’s dictatorship is satirized, in an attempt to justify the need to remain in the colonies; As Naus, by António Lobo Antunes, an anti-epic parody where the imperial past and the post-imperial present are melded, in an implausible return to the prominent personalities of the Discoveries, giving rise to a scenario of human and social misery; O Conquistador, by Almeida Faria reinterprets History by making a parody through its main character, inspired in D. Sebastião, a king lost in Alcácer-Quibir, in 1580; Jornada de África, Romance e Amor e Morte do Alferes Sebastião, by Manuel Alegre shows an autobiographical purpose, narrating the misfortune of a young student who ends, similarly to the homonymous king, lost in combat; A Costa dos Murmúrios, by Lídia Jorge performs a journey through the national and individual identity following the transformation of a young woman who also lived the cruelty of war; or A Jangada de Pedra, by José Saramago where through the use of fantastic elements (imagining the Iberian Peninsula navigating through the Atlantic Ocean) points to the strength of the Iberian union during (against) the process of integration in the European Community. By confronting the past with the present of a People who conquered a remarkable oversea empire and lived under the mystic of that empire for centuries, the contemporary Portuguese Literature uses mythography as a means to reinvent the image of the nation.
Description: Tese de doutoramento em Língua Portuguesa, no ramo de Investigação e Ensino e na área científica de Literatura, apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra
URI: http://hdl.handle.net/10316/23668
Rights: openAccess
Appears in Collections:FLUC Secção de Português - Teses de Doutoramento

Files in This Item:
File Description SizeFormat
Memória e mito dos descobrimentos na literatura do século XX.pdfDocumento principal1.74 MBAdobe PDFView/Open
Show full item record

Page view(s) 20

522
checked on Apr 7, 2020

Download(s) 5

3,486
checked on Apr 7, 2020

Google ScholarTM

Check


Items in DSpace are protected by copyright, with all rights reserved, unless otherwise indicated.